19 de jun de 2011

Renascimento e Seus Grandes Expoêntes Filosóficos

O brilho extraordinário do Renascimento, com o esplendor da sua arte e a pompa das suas festas, não modificou em nada a situação dos explorados. “Escrevo para os eruditos, não para a plebe”, dizia Poligiano. E era esse o pensamento de todo o humanismo. Em 1400, é Leonardo Bruni quem diz: “Sempre suspeitei das multidões”; em 1500, é Guicciardini quem afirma: “ Quem diz povo, diz louco, porque o povo é um monstro cheio de confusões e erros”. Apesar do intenso movimento educativo que caracterizou o Renascimento, em nenhuma oportunidade surgiu a mais tímida tentativa de educação “popular”. 

É verdade que pela boca de Leon Battista Alberti, um representante da burguesia, o Humanismo afirmava que a “ciência deve ser libertada das suas prisões e espalhada a mãos-chias”, com a condição de que o indivíduo se eleve sobre a sua própria classe, para conseguir uma educação adequada às posições superiores. Todos os pedagogos do Renascimento eram filhos de burgueses ricos e viveram como preceptores de nobres e de filhos de burgueses ricos.


“A vida, a verdadeira vida é esta vida humana, feita de engenho e instinto”.


Como uma reação ao feudalismo teocrático, o burguês do Renascimento volveu os olhos para a Antiguidade, para retomar a cadeia da unidade histórica no mesmo elo em que o feudalismo, aparentemente, a rompera. Helenizar era, então, um modo de se opor à Igreja e à nobreza. Volver aos antigos era um modo indireto de renegar a Igreja e a escolástica. Mas, volver os olhos para a Roma Antiga, da paz e do direito, também significava repudiar o poder arbitrário do feudalismo, em que o capricho do senhor tinha força de lei.

A época do Renascimento herdou as tradições antigas e cristãs da pedagogia da essência e as completou com a sua concepção própria do modelo do homem baseado na confiança na razão e nas aquisições culturais da Antiguidade, foi também a época que viu nascer concepções de educação absolutamente opostas.
 
O Renascimento se propôs formar homens de negócios que também fossem cidadãos cultos e diplomáticos hábeis. Uma língua universal, um tipo uniforme de cultura, a paz perpétua, eis as aspirações de Erasmo e do seu tempo.

Erasmo de Roterdão já dizia que a natureza humana é aquela propriedade comum a todos os homens cuja razão é a força que orienta a vida humana. Em conformidade com este caráter fundamental da natureza humana, a educação deve combater tudo o que se lhe opõe e desenvolver tudo o que lhe é próprio. 
O homem feudal sucumbira. Os burgueses compraram as suas terras; a pólvora derrubou seus castelos. Os navios apontavam agora as rotas de um continente remoto, que só poderia ser conquistado mediante a indústria e o comércio.

Os filósofos italianos do Renascimento enriqueceram a concepção do homem com diversos elementos novos. Para nos convencermos da verdade desta afirmação basta lembrar de L. Valli e de Pic de La Mirandole. 

A crítica da escola medieval e da pedagogia medieval inspirou-se não só na nova concepção do ideal, mas também nos direito e nas necessidades da criança, ponto de vista muito bem defendido por Vittorino da Feltre. 

Jean-Louis Vivés criou os alicerces de uma teoria psicológica do ensino, considerando que pode se conceber uma didática justa e eficaz, baseada nas experiências com êxito do mestre. 

Em certas correntes ideológicas do Renascimento, tentou-se enveredar com audácia por uma concepção que outorga aos homens o direito de viverem de acordo com os eu pensamento. Para além de numerosas obras sobre vidas exemplares, de uma rica literatura moralizante, e para além de numerosos modelos, surgem livros sobre a vida humana, que descrevem não o que o homem deve ser, mas quilo que é na realidade. 

Montaigne criticou o caráter superficial e verbal da educação quer escolástica quer humanista, mas nesta crítica foi muito mais longe que os seus predecessores. Não se tratava de lutar por melhores métodos de educação, mas mostrar a profundidade ignorada do processo educativo e revelar a sua ligação com a vida real do homem.

Suchodolski presume que:
O Renascimento foi uma época em que a pedagogia da essência, continuando a procurar inspiração nas tradições pedagógicas antigas e cristãs, criou novas concepções de protótipos e de normas que devem regular os homens e a educação. Mas este período de grandes transformações sociais foi uma época em que o ataque contra a ordem hierárquica eclesiástica e feudal, estabelecida na prática ideológica, se transforma em revolta contra toda a autoridade, revolta realizada em nome das leis correntes da vida. A variedade de formas desta rebelião – dos grandes movimentos camponeses à audácia dos reformadores religiosos – tornou-se fonte de novos conceitos do homem. Em ligação com estas correntes, e a acrescentar-se à discussão dos métodos utilizados pela pedagogia da essência, estabeleceu-se um debate sobre os seus próprios princípios. Iniciou-se uma grande controvérsia: qual deve ser o alcance da renovação da educação? Limitar-se ao conteúdo do ideal imposto e dos métodos para inculcar, ou incluir também a crítica do próprio princípio do ideal? (A pedagogia e as grandes correntes filosóficas, p. 23)

Em vez de um instrumento que serve para dar vida a algo de ideal, deverá permitir conceber a educação como função da vida? 

PONCE, A. Educação e luta de classe. São Paulo: Cortez Editora e Autores Associados, 1981. (Capítulo V)

SUCHODOLSKI, B. A pedagogia e as grandes correntes filosóficas. Lisboa, Horizonte, 1984. (Capítulo III)


Escrito por Flávia Lemos Bianquini.