18/06/2011

A Educação na Comunidade Primitiva

Na comunidade primitiva temos uma pequena coletividade assentada sobre a propriedade comum da terra e unida por laços de sangue. Seus membros eram indivíduos livres, com direitos iguais, que ajustaram as suas vidas às resoluções de um conselho formado democraticamente por todos os adultos, homens e mulheres, da tribo. O que era produzido em comum era repartido com todos, e imediatamente consumido. O pequeno desenvolvimento dos instrumentos de trabalho impedia que se produzissem mais do que o necessário para a vida quotidiana e, portanto, a acumulação de bens.

Na comunidade primitiva, as mulheres estavam em pé de igualdade com os homens, e o mesmo acontecia com as crianças. A sua educação não estava confiada a ninguém em especial, e sim à vigilância difusa do ambiente. As convivências diárias que essas crianças mantinham com os adultos as introduziam nas crenças e práticas que o seu grupo social tinha por melhores. A criança adquiria sua primeira educação sem que ninguém a dirigisse expressamente.

"o ensino era para a vida e por meio da vida."

As crianças se educavam tomando parte nas funções da coletividade. Elas nunca eram castigadas durante o seu aprendizado.

“Deixam-nas crescer com todas as suas qualidades e defeitos.”  

Apesar de entregues ao seu próprio desenvolvimento, nem por isso as crianças deixavam de se converter em adultos, de acordo com a vontade impessoal do ambiente. BILDUNG

São adultos tão idênticos uns aos outros que ainda se encontravam ligados à comunidade por um verdadeiro “cordão umbilical”. MARX

Estamos tão acostumados a identificar a Escola com a Educação, e esta com a noção individualista de um educador e um educando, que nos custa um pouco reconhecer que a educação na comunidade primitiva era uma função espontânea da sociedade em conjunto, da mesma forma que a linguagem e a moral. PONCE

Não havia nada,absolutamente nada, superior aos interesses e às necessidades da tribo. Era esse o ideal pedagógico que o grupo considerava fundamental para a sua própria existência.Os fins dessa educação primitiva derivam da estrutura homogênea do ambiente social, identificam-se com os interesses comuns do grupo, e se realizam igualitariamente em todos os seus membros, de modo espontâneo e integral: espontâneo na medida em que não existia nenhuma instituição destinada a inculcá-los, integral no sentido que cada membro da tribo incorporava mais ou menos bem tudo o que na referida comunidade era possível receber e elaborar. Era conceito da educação, porém, era adequado para a comunidade primitiva, mas deixou de sê-lo à medida que esta foi lentamente se transformando numa sociedade dividida em classes.

A divisão da sociedade em “administradores” e “executores” não teria levado à formação das classes, tal como hoje conhecemos, se outro processo paralelo não tivesse ocorrido ao mesmo tempo. As modificações introduzidas na técnica aumentaram de tal modo o poder do trabalho humano que a comunidade, a partir desse momento, começou a produzir mais do que o necessário para o seu próprio sustento.

"Com o aumento do seu rendimento, o trabalho do homem adquiriu certo valor." 

O trabalho escravo aumentou o excedente de produtos, produtos esses que os “administradores” comerciavam. As coisas continuaram assim até que as funções dos “organizadores” passaram a ser hereditárias, e a propriedade comum da tribo passou a constituir propriedade privada das famílias que a administravam e defendiam. Donas dos produtos, a partir desse momento as família dirigente passaram também a ser donas dos homens.

E com o desaparecimento desses interesses comuns a todos os membros iguais de um grupo e a sua substituição por interesses distintos, pouco a pouco antagônicos, o processo educativo, que ate então era único, sofreu uma partição: a desigualdade entre os “organizadores”- cada vez mais exploradores- e os “executores” – cada vez mais explorados – trouxe,necessariamente, a desigualdade das educações respectivas.

Cada “organizador” educava os seus parentes para o desempenho do seu cargo, e predispunha o resto da comunidade para que os elegessem. Com o passar do tempo, essa eleição se fez desnecessária: os “organizadores” passaram a designar aqueles que deveriam sucedê-los e, desse modo, as funções de direção passaram a ser patrimônio de um pequeno grupo que defendia ciumentamente os seus segredos. Para os que nada tinham, cabia o saber do vulgo; para os afortunados, o saber da iniciação.

Começa a haver uma hierarquia em função da idade, acompanhada de uma submissão autoritária que exclui o antigo tratamento benévolo demonstrado para com a infância, ao mesmo tempo em que surgem as reprimendas e os castigos. Já não sendo possível confiar a educação das crianças à orientação espontânea do seu meio ambiente. A educação sistemática, organizada e violenta, surge no momento em que a educação perde o seu primitivo caráter homogêneo e integral.

Uma vez constituídas as classes sociais, passa a ser um dogma pedagógico a sua conservação, e quanto mais a educação conserva o status quo, mais ela é julgada adequada. Já nem tudo o que a educação inculca nos educandos tem por finalidade o bem comum, a não ser na medida em que “esse bem comum” pode ser uma premissa necessária para manter e reforçar as classes dominantes. Para estas, a riqueza e o saber; para as outras, o trabalho e a ignorância.

Acompanhando as transformações experimentadas pela propriedade, a situação social da mulher também sofreu modificações de vulto. Ela agora passou a ocupar-se tão somente com funções domésticas que deixaram de ser sociais. A mulher, da comunidade primitiva, quando, juntamente com o homem, desempenhava funções uteis à comunidade, gozava dos mesmos direitos que este; mas perdeu essa igualdade e passou à servidão no momento em que ficou afastada do trabalho social produtivo, para cuidar apenas do seu esposo e dos seus filhos. A sua educação, ao mesmo tempo, passou a ser uma educação pouco superior à de uma criança.

Ela agora passou a ocupar-se tão somente com funções domésticas que deixaram de ser sociais. A mulher, da comunidade primitiva, quando, juntamente com o homem, desempenhava funções uteis à comunidade, gozava dos mesmos direitos que este; mas perdeu essa igualdade e passou à servidão no momento em que ficou afastada do trabalho social produtivo, para cuidar apenas do seu esposo e dos seus filhos. A sua educação, ao mesmo tempo, passou a ser uma educação pouco superior à de uma criança.

Mas ainda estava faltando uma instituição que não só defendesse a nova forma privada de adquirir riquezas, em oposição às tradições comunistas da tribo, como também que legitimasse e perpetuasse a nascente divisão em classes e o “direito” de a classe proprietária explorar e dominar os que nada possuíam: o Estado.

PONCE, A. Educação e luta de classe. São Paulo: Cortez Editora e Autores Associados, 1981. (Capítulo I)

Escrito por Izabela Moreira Alves.