19 de jun de 2011

Pedagogias e Filósofos

Em Atenas vemos surgir a necessidade de uma “nova educação” para um “novo homem”. Atacando frontalmente a tradição dominante, os sofistas propuseram dar aos atenienses não só os conhecimentos que a vida prática requeria, como também secularizar a conduta, tornando-a independente da religião.

Para a aristocracia de Platão, a capacidade de pensar e de entrever as ideias eternas dependia de um sexto sentido que só uma exígua minoria possuía. Para o artesão Sócrates, a capacidade de pensar era comum a todos, e bastava simplesmente dialogar com destreza para ensinar os homens a tirarem conclusões: vigorosa afirmação do pensamento reflexivo frente ao dogma intangível das idades anteriores. 





Uma educação para a prosperidade era a educação reclamada por todos. A “virtude” do proprietário guerreiro, que pretendia, acima de tudo, formar soldados, empalidecia diante do “bem-estar” do homem enriquecido e próspero, que aspirava formar indivíduos conscientes do seu próprio valor e capazes de abrir novos caminhos a qualquer custo.

Os jovens que seguiam os sofistas, que escutavam Sócrates, que frequentavam os ginásios eram ricos. Os ginásios se converteram, por volta do século IV, em centros de reunião da sociedade elegante. Frequentá-los era equivalente a declarar que não se estava obrigado a trabalhar para viver.

Porém, Protágoras assinalava como fim da educação: “dar bons conselhos em assuntos domésticos, para que os jovens arranjem as suas casas do melhor modo possível, da mesma forma que capacitá-los em assuntos políticos, para serem capazes de dominar os negócios da cidade. 






A “velha educação” impunha às crianças uma disciplina militar. Na sua ida a escola as crianças eram acompanhadas por um escravo (pedagogo) até um lugar em que se reuniam todas as crianças do bairro. 

Teóricos da educação propriamente ditos, como Platão e Aristóteles interpretaram, cada qual ao seu modo, o sentir das classes dominantes.

Formar os guardiões do estado, que saibam ordenar e obedecer, de acordo com a justiça.
A justiça seria conseguida desde que cada classe social realize a sua função própria. PLATÃO
“Não apenas sustentou que a escravidão estava na natureza das coisas, como afirmou que as classes industriais são incapazes de ‘virtude” e de poder político.” ARISTÓTELES
Para ambos uma sociedade fundada no trabalho escravo não podia assegurar cultura para todos. O rendimento da força humana era tão exíguo que um homem não podia estudar e trabalhar ao mesmo tempo. Portanto, aos filósofos caberia a direção da sociedade, aos guerreiros, protegê-las e aos escravos manter as duas classes anteriores. A separação entre a foca física e a força mental impunha ao mundo antigo estas duas enormidades: para trabalhar, era necessário gemer misérias da escravidão e, para estudar, era preciso refugiar-se no egoísmo da solidão.

Como Suchodolski já dizia, a filosofia de Platão havia tomado tamanha importância capital na história espiritual da Europa, resultando não só por ter sido por diversas vezes ponto de partida de várias correntes filosóficas, desde a época helenística ao Renascimento, mas também de algumas das teses da filosofia essencial tendo entrado por vezes no domínio público quase geral, tornando-se expressão da posição idealista mais vulgar em relação a realidade. Isso se revelou particularmente fértil no campo da pedagogia. Platão teria ensinado a diferenciar o mundo da Ideia perfeita, que não é mais que o mundo das sombras, empírico, imperfeito, inconstante, de fato irreal, que é o terreno da vida humana. Ele distinguiu no próprio homem o que pertence a este mundo das sombras e o que pertence ao mundo magnífico das idéias: o espírito na sua forma pensante. Estas distinções constituíram o motivo clássico que conduziu a pedagogia da essência a descurar tudo o que é empírico no homem e em torno do homem a conceber a educação como medidas para desenvolverem no homem tudo o que implica a sua participação na realidade ideal, tudo o que define a sua essência verdadeira, embora asfixiada pela sua existência empírica. 

Todo esse contexto nos faz lembrar da Escola de Atenas. A seguir um vídeo para exemplificar essa ideia.

 

PONCE, A. Educação e luta de classe. São Paulo: Cortez Editora e Autores Associados, 1981.(Capítulo II)

SUCHODOLSKI, B. A pedagogia e as grandes correntes filosóficas. Lisboa, Horizonte, 1984.
(Capítulo II)

Escrito por Flávia Lemos Bianquini.